30 de abr. de 2010

Morte.




E hoje a Lua está muito cheia e eu tão vazia, tão fria
você me conhece tão bem, até me decorou lembra?  
sou sua, tão avesso, nua e crua, na lama, cama, rua   
tínhamos nossos códigos, nossos amores e as dores
juntos e separados brigamos, pecamos e perdoamos
cúmplices no mesmo crime; cenas de paixão e ciúme
possessivos, inconsequentes, masoquistas e sádicos 
você morreu, não adoeceu, não avisou, não chamou
temi muitas das suas mulheres em torno do esquife
elas não apareceram e fui sua viúva (sozinha e feliz)
onde estiver vai me ler, me saber, me sentir e amar
vai me esperar e eu nem vou demorar ou complicar 
não estou tão triste, nem saudosa; sou consciente 
você morto, nosso filho morto, meu caminho torto
sobraram todos; nem creio que ainda estou viva!

BakAnynha

Luas.


 luas se encontram no Espaço Flor de Jasmim
femininas, médias e miúdas, claras e escuras
fiéis às próprias fabulas, sagas, sons, signos. 
A Lua Antiga, quieta e só, bebeu a luz na tribo  
encantada, no fogo, olhou homens estranhos 
nada entendeu do idoma falado, nem poderia
pareciam fortes, felizes, guerreiros corajosos  
donos das mulheres, terras, filhos, verdades 
na festa dele, vinho e brinde, verde e silencio 
assou o peixe prata, pano amarrado no corpo
calado, comandou o nada e organizou o tudo
 Lua Antiga repensou: -reinar é simples assim 

BakAnynha

24 de abr. de 2010

Senhor.



Ele moreno, ela clara; diferentes em quase tudo
ela calma, ele, inquieto; mão na mão, praia azul 
vieram de carro, tomaram balsa, atravessaram rio
a mulher olhava para o alto, sempre teve a mania
 cheiro de terra, sombra dos bambus tão verdinhos 
proibidos de ver arte de Brennand numa pousada
o vigia indica outro lugar, ponto do encantamento
uma moça atendeu, risonha; nenhuma informação
Proprietário? Não estava. O casal deixou o cartão.
Muitas luas se passaram, o Dono, certo dia,  ligou
Nem se conheciam mas já combinaram o encontro
Decisão: casal retorna, alumbrado, mato e jasmim
No dia seguinte, percorrem o casarão, único, lindo   
O Senhor do Reino aceita inquilinos, impõe regras 
Nada de crianças, barulho, bagunça; calma e paz
O magro moreno de barba branca, só concordou 
Ela, já ironica, pensou:-é proibido proibir Senhor!
Aquele velho, muito chato (mistério transparente)  
Foi aí que tudo começou...

BakAnynha

21 de abr. de 2010

Carta p/Mãe.

Oi Mãe!
"Então mãe, me conta daí, Jardim do Paraíso, cercada de anjos?
Então, hoje faz um ano que partiu; eu estava longe, em África.
Tristeza na despedida do hospital, né?; lucidez, carinho amor.
Nós duas conversamos, acertamos ponteiros, houve o adeus. 
Ô! Sentiu tanto medo, não foi? Eu sei! E agora, está tranquila?
Encontrou Papai? Conversou sobre as coisas da terra com ele?
Claro! Como sempre, escondeu certos detalhes mais sórdidos.
Sinceridade total nunca foi mesmo o seu forte... mas tá bem!
As amigas Luzia, Emília, Bezinha, seu irmão Solon, seus pais?
Ah Mãe! Se encontrar Meu Filho Rodrigo, o pai dele Armando.
ÔÔÔ Mãe! Diga a eles que o amor é o mesmo, louco e total.
Eu continuo mutilada de saudade; caminho como posso, viu? 
Nem apaguei os nomes da agenda, quero telefonar todo dia. 
Contar coisas, ouvir ironias, conselhos, promessas de rezas.
Sempre lhe dei problemas, mas nunca lhe trouxe monotonia.
Continuo envelhecendo. Mesma menina medrosa e atrevida.
Tudo que você não queria: a filha mais alternativa do mundo. 
Desculpa Mãe, mas não deu para ser menos tumultuada, tá?
Sofri muito por isto, até tentei ser normal; ainda tento, juro.
Culpa do excesso: amor, dor, prazer, fantasia, sonho, paixão. 
Calma! Chego já aí e continuaremos o papo, firmes e fortes.  
Mas, enquanto isso, apura paciência com os seres celestiais.
Humildade, resiliência, sanidade, sentimentos de todos dia. 
Eu mudei, acredite. Nenhuma brabeza, orgulho, vaidade.
O pavor de baratas e certos exageros ainda permanecem.
Conservo o bom humor e continuo pecando (um pouco).
Beijos da tribo (netos e bisnetos) e um cheiro da filha.

(BakAnynha)

PS: Olha pra baixo, estou aqui, Japaratinga/AL...
Depois conto detalhes...

19 de abr. de 2010

"Sprachorhr" (?)



Era uma vez o castelo, o homem, seu reino 
No Espaço Flor de Jasmim, no abril azul anil
Lendas são reais nas montanhas, sabemos 
Nuvens no firmamento, cabeças, esculturas
Juízos negros, retorcidos na calma absoluta.
Era outra vez, chega a velha mulher urbana
Que invadiu -lúcida, lírica- o lúdico domínio
Danada demente, deslizou no sonho alheio
Escutou paciente o início, o relato, meio, fim 
Tão ousada e calou; tão medrosa, silenciou
De tanto falar -nenhum planear- exagerou  
De estranho nome ele a chamou e rotulou 
Significado: língua do tubo, verbo da alma
Desacreditou, esqueceu, dormiu e sonhou
Polido, num tubo, a palavra ele desenhou
Chegou na hora da visita, deu o presente
Surpresa, ela mirou a prenda, guardou.  
Viu brilho e vagalumes na noite escura
Sentiu suave o efêmero; era dia claro


BakAnynha




10 de abr. de 2010

Azul anil.


Então chegou meu abril, cheio de azul, transbordando anil
Não me fiz de rogada, usei verde natureba e amarelo sol 
Um escândalo, pecado, ironia cruel do Destino; mea culpa.
Não deixei de desfrutá-lo, nem ele de mim; azulzinha soul
É gente minha; estava a merecer pouquito de paz e amor
Beliscar pitada de alubramento, dose dupla de alienação 
O coquetel me inebria, mas a realidade me quer de volta
Não nego! Recife, aqui vou eu! Bem triste e tensa... 
Retomo a minha antiga conhecida e odiada estaca zero 
Vai passar esse "espicha/encolhe" um dia? Seilá, seinão
Tem sido sina, saga; cansada me calo, consinto

BakAnynha (Japaratinga)